Vamos falar de assédio
Edição:
1
2018

 

Assédio

Embora existisse aquela publicação que, na editoria de política, narrava os fatos como se eles fossem um filme de ação, e, na editoria de cultura, descrevia os filmes como se eles fossem fatos enfadonhos, a separação entre cinema e jornalismo continua sendo uma boa notícia.

Para quem milita na imprensa, é um fator de estímulo acreditar que seu negócio não se reduz a entreter a audiência – e é um alívio saber que Harvey Weinstein, agora execrado por acusações de assédio sexual, era um produtor (e um Midas) de Hollywood, não um diretor de redação, ou que Kevin Spacey, outro nome despedaçado pelas mesmas denúncias, é um ator (arrebatador), não um repórter. Imprensa e cinema são universos diferentes. Ainda bem.

Outrossim, embora exista o magistral editor a nos ensinar que o espelho das revistas evolui como sinfonia, alternando movimentos mais planos e outros mais cheios de altos e baixos, a separação entre música clássica e jornalismo continua valendo. Para quem trabalha nas redações, faz bem a convicção de que seu ofício não é ler partituras, mas apurar a realidade. Redações e salas de concerto são universos diferentes – e, com igual alívio, as danações que pesam sobre James Levine, apontado como abusador, caem sobre um maestro (esplêndido), não um diretor editorial.

Um dos males morais deste início de século – ser autor ou vítima de opressões sexuais de diversas modalidades – vem varrendo e devastando o mundo do showbiz, mas, eis o alívio, imprensa não é showbiz, certo?

Errado. O alívio é ilusório. Vão. O destino comum que tragou a biografia desses três nomes célebres (até aqui) é também o destino que começa a fazer tremer os alicerces da reputação do jornalismo. Na indústria do entretenimento e suas tecnológicas derivações, imprensa, cinema, salas de concerto e escândalos sexuais, bem, com todo o respeito, é tudo meio a mesma coisa: é tudo (quase) o mesmo mercado e (quase) o mesmo capital. Todos comungam da mesma cultura, que é a cultura do consumo, do espetáculo, uma cultura que não poupa instituição alguma. A Igreja Católica, os esportes olímpicos, as forças armadas, ninguém está a salvo. De sorte que esse problema também é um problema da imprensa.
Não foi por diletantismo que a edição americana da Columbia Journalism Review cumpriu seu dever e registrou o golpe. De nossa parte, no Brasil, publicamos os artigos de Eleonora de Lucena e Sylvia Moretzsohn, que contam histórias pouco edificantes sobre assédio, e como essa chaga marcou a vida e a carreira de mulheres em redações nacionais. O inventário das infâmias que se passaram – tanto no exterior como aqui – ainda está longe de receber um ponto final. O que vai aparecendo, aos poucos, são fios narrativos que ainda ferem, constrangem e demandam uma energia emocional enorme para sair do silêncio e da escuridão.

Qual a solução? Eis a pergunta enganadora. É hora de conhecer o que se passou, não de resolver e arranjar pedras para tapar os esgotos do passado. A busca precipitada por soluções costuma vir de braços dados com o ranço moralista. Existiria um caminho para um equacionamento ético seguro de vivências tão sofridas, de traumas tão fundos entre desejo e opressão? A matéria é difícil e seguirá difícil. Para pensar sobre o tema sem os aprisionamentos previsíveis da cultura do “politicamente correto”, o filósofo Luiz Felipe Pondé disse sim a uma encomenda ingrata. Para ele, a era das fake news traz junto uma era de fake ethics, contra a qual é preciso se precaver. No mais, não há resposta pacificadora.

Até aqui, sabemos que, na cultura das redações – nas brasileiras, notadamente –, houve abusos da ascendência hierárquica para promover verdadeiros estupros simbólicos – ou mesmo estupros reais. Ficou nebulosa a fronteira entre a chantagem e o galanteio, entre a intimidação e a sedução. Ficou escura, mais ainda, a fronteira entre a intenção e o inconsciente, do lado de quem oprimiu, é claro. E também do lado de quem cedeu.

Machismo? Sem dúvida, mas não só. Não se pense que o exercício do poder para obrigar a outra parte a se curvar tenha sido somente uma estratégia masculina contra mulheres. Há sinais de que aconteceu de tudo nesse pântano. Tudo mesmo, até coisas boas, como paixões libertadoras, amizades inabaláveis, amores sublimes e, inclusive, reportagens marcantes. Mas algo dentro desse “tudo” que aconteceu pede para ser contado, pede para ser discutido. Talvez seja hora de começar.

EDITORIAL
O ASSÉDIO 

ROUBOU A CENA
Denunciando e alardeando ataques sexuais, #MeToo deu o que falar e virou figura do ano de 2017 nos EUA

TUDO EM DIA
CONTRA ROBÔS, SENSO CRÍTICO E CIDADANIA
Carlos Eduardo Lins da Silva compara a influência das redes sociais na eleição de Trump com o cenário deste ano no Brasil

DIRETO DE COLUMBIA
ENTRE BOAS E MÁS NOTÍCIAS
Lutas femininas para conquistar posição e respeito são o tema da coluna de Michael Schudson

IDEIAS + CRÍTICAS
CONVITE À REFLEXÃO
Maria Elisabete Antonioli faz o balanço do 1º Seminário Internacional de Jornalismo ESPM/Columbia

RECLAMAR PRA QUEM?
Alexandria Neason mostra por que funcionam mal as políticas contra assédio em empresas jornalísticas

A ERA DOS ESCÂNDALOS
Jill Geisler explica como proceder quando a investigação de denúncias é na própria equipe

ISSO NÃO VAI PARAR POR AQUI
Para Pete Vernon, vêm aí novas revelações de má conduta de personalidades da indústria da comunicação

ENQUANTO ISSO, NO BRASIL...
ASSÉDIO É SOBRE PODER; COMBATE É COLETIVO
Eleonora de Lucena analisa as relações desiguais de um ambiente profissional machista e diz que só a ação conjunta vai vencer a guerra

VOZES CONTRA A OPRESSÃO
Sylvia Debossan Moretzsohn reúne depoimentos de mulheres perseguidas por chefes, colegas e fontes

O CONTO QUE KAFKA NÃO ESCREVEU
Entre a filosofia e a literatura, Luiz Felipe Pondé radiografa a nossa era: vivemos sob a égide de fake news e fake ethics

JORNALISTAS SOB TUTELA
O presidente do Sindicato dos Jornalistas no Estado de São Paulo, Paulo Zocchi, afirma que os profissionais não têm liberdade de opinião

NA MIRA DA MÍDIA
Anna Gabriela Araujo investiga como sites e redes sociais embaralham fatos e boatos para promover linchamentos virtuais

MEMÓRIAS DE UM PIONEIRO DA ABOBRINHA
Luiz Henrique Romagnoli narra as peripécias do rádio em busca da leveza e do bom humor para manter a audiência

PARA LER E PARA VER
Leão Serva resenha Fire and Fury, entre outros livros e artigos, e comenta a série de televisão The Crown e o longa The Post - A Guerra Secreta

CREDENCIAL
VIDA LONGA AO PROJOR
Angela Pimenta homenageia o Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo e resume os projetos para 2018

Semestral

Publicações Avulsas

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