De olho no umbigo
Edição:
2
2017

 

O próprio umbigo – e o alheio

CONTAM – HÁ MILÊNIOS – que o Oráculo de Delfos se localizava exatamente no centro do mundo. No início, Zeus teria mandado soltar duas águias nos extremos opostos da Terra, com uma ordem expressa: que elas voassem uma ao encontro da outra. Elas o obedeceram e foram se encontrar exatamente em Delfos. Existe lá, até hoje, uma escultura em forma de ovo, um pouco maior que um botijão de gás, a que se deu o nome de Ônfalus, que, em grego, significa “umbigo”.

Isso tudo para dizer que o umbigo do mundo fica em Delfos. Olhar para o umbigo do mundo – um ovo com um alto relevo que simula cordas entrelaçadas, formando uma rede ao seu redor – não chega a ser uma experiência transcendente, mas serve para nos lembrar de que era lá, de um jeito ou de outro, onde a humanidade olhava para o próprio umbigo. Foi assim durante boa parte da Antiguidade. Quando uma pessoa não sabia quem era ela, como aconteceu com Édipo, corria para o Oráculo de Delfos, onde aliás estava escrito: “Conhece-te a ti mesmo”. O mandamento inclui, por evidente, conhecer o próprio umbigo (ainda que não apenas ele).

Nesta edição da Revista de Jornalismo ESPM, a ilustração da capa sugere a figura de um sujeito de pé com a cabeça exageradamente curvada sobre o próprio colo, olhos pregados no umbigo de si mesmo. O desenho brilhante de Kiko Farkas alude à postura daqueles que se ocupam demasiadamente de si. Digamos que seja esse o nosso caso, aqui. Somos imprensa sobre imprensa, ou imprensa especializada em imprensa, ou, ainda, metaimprensa. Somos a imprensa dedicada a seu umbigo.

Com efeito (bendita expressão), a crítica da imprensa na imprensa pode descambar para um exercício umbilicalmente narcísico. Pode também ser útil. Temos esperança na segunda alternativa. Acreditamos que, se souber olhar o próprio umbigo, com rigor, desapego, transparência e desprendimento, a imprensa aprenderá a olhar o umbigo alheio – com lupa e com coragem.

Mas a coisa é ainda mais rocambolesca. Na presente edição, o tema do umbigo dá uma volta sobre si mesmo, pois o assunto principal desta edição é exatamente a crítica da imprensa, quer dizer, o modo como a imprensa falou de si mesma (de seu próprio umbigo) ao longo da história brasileira. Em resumo, aqui falamos da imprensa que falou de imprensa.

Alzira Alves de Abreu escreve sobre o pai de todos os projetos de crítica da mídia do país, os Cadernos de Jornalismo e Comunicação do Jornal do Brasil (p. 20), concebidos por Alberto Dines. E Fernando Gabeira, que editou esses Cadernos, nos dá o seu depoimento sobre como foi essa experiência nos anos dourados (p. 24). Carlos Vogt relata outro projeto de Dines, o Observatório da Imprensa (p. 25), que sobrevive até hoje, raro caso de longevidade no gênero. Gaudêncio Torquato trata dos Cadernos de Comunicação Proal (p. 26) e Lúcia Costa se ocupa de Crítica da Informação (p. 34), que beberam nessas águas, mas tiveram vida curta. Paula Cesarino Costa (p. 39) e Esther Enkin (p. 14) falam da instituição do ombudsman. A primeira é a atual guardiã dessa posição na Folha, e a segunda é a presidente da entidade mundial que reúne os cada vez menos ombudsmans de imprensa.

O autoexame de umbigo jornalístico inclui dois verdadeiros oráculos da imprensa contemporânea. São eles Michael Schudson e Steve Coll. Schudson, o principal historiador da imprensa americana, professor de Columbia, é na verdade nosso colunista e, nesta edição, trata do nosso tema principal (p. 12). Quanto a Coll, diretor da Columbia Journalism School, premiadíssimo repórter da New Yorker, com dois Pulitzer no currículo, dá entrevista a Ricardo Gandour e Jorge Tarquini, em que aborda, entre outros, o assunto central deste número (p. 44).

Nem por isso, por tudo isso, esta modesta revista não se pretende comparável ao Oráculo de Delfos, um marco fundador da nossa civilização. Embora as semelhanças sejam profusas e intermináveis, há uma diferença, uma pequena diferença, que desencoraja analogias desmesuradas. No Oráculo de Delfos, o Ônfalus era de pedra dura, não deixando dúvida sobre sua localização. Quanto à imprensa, bem, a verdade oracular é que a gente, apesar de tudo o que foi dito até aqui, não sabe direito se ela tem umbigo – e também não sabe onde é que ele foi se esconder. Destarte (abençoada expressão), tergiversar sobre o umbigo da imprensa não resolve grande coisa. Outrossim (esta é melhor), não custa tentar.

TUDO EM DIA
IMPRENSA NA LUTA PARA SAIR DO VERMELHO
Carlos Eduardo Lins da Silva comenta a ascensão e queda do Newseum, o Museu da Notícia, e as tendências do jornalismo

DIRETO DE COLUMBIA
MAIS E MELHOR
Michael Schudson refaz a trajetória do media criticism e constata que o campo se amplia e se sofistica ao longo do tempo

IDEIAS + CRÍTICAS
EM DEFESA DA AUDIÊNCIA
Esther Enkin exalta o papel do ombudsman e diz que as redes sociais não vão matar a análise profissional da reportagem

MEMÓRIAS DE UMA AUTOANÁLISE
Uma coletânea de artigos sobre as publicações que fundaram os alicerces da crítica de mídia no Brasil

REPÓRTER TAMBÉM É LEITOR
Alzira Alves de Abreu propõe uma reflexão sobre os Cadernos de Jornalismo e Comunicação do JB, lançados por Alberto Dines nos anos 1960

COM A PALAVRA, O EDITOR
Fernando Gabeira faz depoimento sobre a criação, os desafios, as conquistas e uma mancada dos Cadernos de Jornalismo

AO DINES, COM CARINHO
Carlos Vogt rememora conversas que contribuíram para a construção do Observatório da Imprensa, raro exemplo de inovação e longevidade

A VOZ DAS EMPRESAS E A VOZ DA SOCIEDADE
Gaudêncio Torquato escreve sobre os Cadernos de Comunicação Proal, que, na década de 1970, discutiam a comunicação organizacional e o papel da imprensa

PÁGINAS DE OUSADIA
Lúcia Costa revive a experiência da revista Crítica da Informação, que, entre 1983 e 1984, retratou a efervescência social e abraçou a causa da modernização das redações

DE QUE VALE A FUNÇÃO DE OMBUDSMAN?
Paula Cesarino Costa traduz o que faz o representante dos leitores e mostra como ele ajuda a empresa jornalística

ENTREVISTA: STEVE COLL
O diretor da Columbia Journalism School aponta caminhos para o ensino e a prática do jornalismo em tempos de boataria, algoritmos e polarização política

DOSSIÊ: A IMPRENSA NAS PLATAFORMAS
Emily Bell e Taylor Owen apresentam estudo do Tow Center for Digital Journalism sobre o impacto das redes sociais e das empresas de tecnologia na vida prática das redações

PARA LER E PARA VER
Leão Serva sugere uma exposição de fotógrafos de guerra brasileiros, entrevista Ralph Keyes, o escritor que consagrou o termo “pós-verdade”, e resenha dois livros

CREDENCIAL
A ESPM E O JORNALISMO
Dalton Pastore lista competências que a escola fomenta em futuros repórteres, como a paixão pela verdade e pela liberdade

Trimestral

Publicações Avulsas

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