Bolsonaro e a Imprensa
Edição:
1
2019

 

Contra a retórica fascista

Costuma-se dizer que o ministro da propaganda do regime nazista da Alemanha, Joseph Goebbels, defendia a tese de que uma mentira repetida mil vezes se transforma em verdade. Difícil comprovar que ele tenha mesmo escrito ou defendido tal teoria.

O que Goebbels fez, diversas vezes, foi acusar inimigos, especificamente judeus e ingleses, de agirem conforme o princípio da “grande mentira”: “Se alguém mente
deve mentir exageradamente e se manter firme na mentira, continuar com a mentira mesmo sob o risco de parecer ridículo”.

Se Goebbels reivindicava para si a autoria do conceito ou o atribuía a outros pouco importa. Sua propaganda, e a de inúmeros outros movimentos radicais, era marcada pelo que Hannah Arendt chamou de “extremo desprezo pelos fatos (...) já que, em sua opinião, o fato depende inteiramente do poder do homem que pode fabricá-lo”.

Na era dos “déspotas eleitos”, como o importante jornalista britânico Martin Wolf chama estes complicados tempos atuais, os líderes autoritários, mesmo que não tenham chegado ainda ao totalitarismo, seguem com zelo os caminhos traçados por seus antecessores do século passado.

É difícil definir a verdade. Nem Jesus teria respondido, ao menos não verbalmente, à pergunta de Pilatos “O que é a verdade?”, de acordo com o Evangelho segundo São João. O mesmo João que Jair Bolsonaro adora citar: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”.

É menos complicado reconhecer a verdade factual, ou seja, aquela que é mais simples, do que a filosófica. A mesma que é a missão do jornalismo buscar. Dois carros bateram numa determinada hora do dia em um específico local da cidade: esses fatos podem ser apurados e relatados com exatidão.

Bolsonaro, a exemplo de seus ídolos Donald Trump e Benjamin Netanyahu, tem distorcido e negado verdades factuais corriqueiramente, no que aparenta ser estratégia deliberada similar à diagnosticada por Arendt quando examinava o nazismo, que, por sinal, não foi um movimento político de esquerda, mas sim de direita.

Ele mente a respeito de fatos atuais e do passado, em consonância com o que fizeram Hitler e Mussolini. Seria exagero e injusto compará-lo aos dois em termos de desrespeito à democracia e às liberdades individuais. No entanto, é justo afirmar que ele tem potencial para chegar perto, se não for contido.

À imprensa cabe importante papel na contenção dos impulsos do presidente. Ela não pode errar muito, como outras instituições que também têm o dever de agir em casos de avanços autoritários têm errado, como o Supremo Tribunal Federal.

Infelizmente, o jornalismo brasileiro, na trilha do americano com Trump, não vem desempenhando bem o seu papel. Faz o jogo do inimigo quando se engaja com ardor em batalhas ideológicas a partir de despautérios do presidente e seus aliados sobre temas de cultura e moralidade.

Por que gastar tanto espaço, tempo, energia em polêmicas sobre as besteiras de Olavo de Carvalho ou Damares Alves? Que elas sejam registradas de maneira sucinta e crítica. O jornalismo deve investir pesadamente é quando as palavras, que denotam o fascismo, passam a incitar a prática de atos que são fascistas.

Filmar professores em sala de aula para denunciá-los por “doutrinação”, como se tentou fazer em Santa Catarina, merece ser combatido com prioridade, assim como a imprensa, com apoio da sociedade, conseguiu travar no governo Lula a iniciativa de criar conselhos reguladores do jornalismo.

A retórica fascista de Bolsonaro é uma ameaça real a valores humanos caros. O jornalismo tem de estar atento a ela e registrá-la. Mas, acima disso, deve agir para impedir que ela se transforme em ação e mostrar se o presidente e seu governo têm capacidade para governar bem o país.

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